INSTITUCIONAL | 19.12.2019 | Publicado por COMUNICAÇÃO ASA

Entrevista com a Superintendente Executiva Celia Tilkian – Realizações de 2019

ASA NOTÍCIAS – Celia, mais um ano se encerra. Como você caracterizaria esse ano de 2019?

CT – Definitivamente, este foi um ano desafiador, com muitas inquietações. Mas devo fazer uma ressalva: na verdade, essas inquietações de 2019 só confirmaram algumas questões que vínhamos sentindo nos últimos anos.

 

ASA NOTÍCIAS – A que questões você se refere? O que vinha acontecendo nos últimos anos?

CT – As mudanças têm a ver com uma percepção de senso comum, minhas, da ASA e da sociedade como um todo. A velocidade das transformações tem sido a tônica dessas últimas décadas e são visíveis não apenas na evolução tecnológica, mas em todos os segmentos da sociedade. Essas mudanças têm sido acompanhadas do agravamento das desigualdades sociais e impacta fortemente o campo da educação e o da assistência social, onde a ASA atua e busca transformar há quase 8 décadas.

Todas essas mudanças são de grande complexidade. Dessa forma, o que se impôs para nós nos anos recentes é uma revisão do que fazemos, para quem fazemos e como fazemos.

 

ASA NOTÍCIAS – Você pode explicar melhor como essas mudanças estão afetando a ASA?

CT – Todo esse cenário nos trouxe novos dilemas, descobertas e desafios e acabou impondo a necessidade da revisão da fundamentação de nossos trabalhos sociais e pedagógicos. Obriga-nos a atualizar nossas práticas e, consequentemente, a melhorar nossas estratégias de obtenção de recursos.

No final de 2018, foi formado um grupo interno de trabalho, de estudos e discussões que se debruçou sobre a construção da nova proposta político-pedagógica da ASA. Ao longo do ano, a partir de leituras, inúmeras reuniões e discussões esse documento foi se constituindo e será finalizado muito em breve.

A nova proposta político-pedagógica da ASA que está para nascer, está embasada na concepção de Educação Integral, visando ao desenvolvimento integral dos bebês, crianças e adolescentes.  Ela compreende a formação do indivíduo em suas dimensões essenciais: a cognitiva, a emocional, a cultural, a social, a física e a motora. E esse olhar mais complexo, essa perspectiva holística, que precisamos ter, exigirá muito de todos os profissionais ASA. Aliás, já vem exigindo, especialmente nos CCAs.

Outra coisa: precisamos lembrar que esta nova fundamentação, a Educação Integral, já é política pública há anos em vários municípios do país; é disseminada por instituições respeitáveis e reconhecidas, como Fundação Itaú Social. E nós entendemos que ela responde à necessidade que enfrentamos de compreender mais profundamente a criança e o adolescente, potencializando seus saberes, seus territórios, suas histórias de vida, fortalecendo vínculos familiares e com as comunidades onde atuamos.

 

ASA NOTÍCIAS – E como as equipes vêm sendo preparadas para essa atualização?

CT  – Tem um outro aspecto que quero comentar antes de falar da formação das equipes. É preciso entender que a nova fundamentação, a transformação nos nossos trabalhos formativos com os bebês, crianças e adolescentes deverá ser feita de tal maneira que atendam seus anseios, de suas famílias, as exigências do contexto atual e, por outro lado, que nos permita resolver necessidades e problemas decorrentes do agravamento das vulnerabilidades que comprometem a formação integral do público atendido. O projeto PREVINA-SE, a articulação com as comunidades, passam a ser prioridades para nós, e são exemplos de como precisamos atuar.

Bom, voltando à sua última pergunta, sobre as formações das equipes: nos CCAs, espaços essencialmente de convívio e cidadania, a proposta pedagógica socioeducativa foi revista, reavaliada, estudada e mudou de perspectiva após formações mensais conduzidas por Júlio Neres, que também é consultor do CENPEC, referência de excelência na formação de educadores. Participei de vários encontros com Júlio e tem sido um grande alento saber que ele está conduzindo as reflexões e atualização nos CCAs.

Nos CEIs, para nossa sorte, a prefeitura estabeleceu um contrato com o Comunidade Educativa CEDAC, organização também bastante reconhecida, com longa e profunda experiência em formação de educadores. E, além do CEDAC, mantivemos a nossa parceria com a Fundação Carlos Chagas, com a Professora Doutora Eliana Maria Bhering. Aliás, um privilégio para os profissionais dos CEIs porque, além dela ser Ph.D em Educação pela Universidade de Londres, é pós-doutoranda em Educação Infantil e tem tido uma atuação muito importante na elaboração e avaliação de vários projetos, programas e políticas públicas na área.

 

ASA NOTÍCIAS – Você poderia comentar um pouco sobre o que está mudando nos CCAs e nos CEIs?

CT  – Nos CCAs, as grandes questões abordadas na formação ao longo do último ano e meio foram: a percepção de que não há prática educativa isenta; autonomia é essencial para o desenvolvimento integral das crianças e adolescentes; se nos propomos a ser bons educadores precisamos estudar, observar, avaliar, experimentar e respeitar sempre as crianças e adolescentes (com seus saberes, suas experiências e histórias de vida);  atividade por atividade não desenvolve e não forma ninguém; respeito por diferenças; escuta; estímulo à liberdade de expressão, à criatividade,  à convivência saudável; gestão de conflitos. A partir desses grandes tópicos e seus desdobramentos, a natureza dos planejamentos foi modificada, a forma de olhar para si como educadores, como colegas e as relações com as crianças e adolescentes vêm mudando significativamente para melhor na percepção das próprias equipes e do público atendido.

Nos CEIs, a primeira demanda foi a ampliação de conhecimento do “Currículo da Cidade” e sobre os “Indicadores da Qualidade da Educação Infantil Paulistana”.  Os dois são documentos base da política pública em educação desta prefeitura. Outros temas abordados nas formações do CEDAC e Carlos Chagas foram: as interações e as brincadeiras; o entendimento de que as brincadeiras são essencialmente uma atividade cultural, que permitem a construção de identidade e representatividade; a importância e impactos dos ambientes educativos; a organização do trabalho pedagógico; e a compreensão sobre a indissociabilidade do cuidar e do educar.

 

ASA NOTÍCIAS  – Por fim, mas não menos importante, a mudança do Brechó Pinheiros não foi só uma mudança de endereço não é? O que está por trás desse novo reposicionamento?

CT – O novo Brechó Pinheiros chega com uma visão totalmente atualizada de inserção neste tipo de comércio, com uma preocupação conceitual alinhada à ideia de sustentabilidade. A proposta do novo brechó está preocupada com o compromisso de estimular o consumo consciente, a reutilização de produtos e materiais, o repensar a moda, a reciclagem de peças por meio de customizações. Enfim, a ASA, por meio do Brechó Pinheiros, dá sua contribuição ao seu público e à cidade engajando-se pra valer no movimento em busca de uma vida mais sustentável.

E nessa linha, outros projetos para utilização otimizada do espaço do brechó ainda serão implementados ao longo do próximo ano. Mas de imediato, com esse reposicionamento e novo endereço aumentamos o faturamento do brechó nos últimos meses, fonte importantíssima de recursos para a continuidade dos trabalhos realizados pela ASA.