Campanhas | 05.05.2020 | Publicado por COMUNICAÇÃO ASA

Percepções sobre o trabalho da ASA durante a pandemia

Convidamos Thales Alves – Coordenador Geral dos CCAs para um bate-papo sobre a campanha ASA20: Um passo a frente na prevenção do Covid-19.

Vale a pena a leitura!

ASA: Na sua visão, qual a importância da campanha ASA-20 para as comunidades onde atuamos?

T.A.: Se você me permitir abrir um pouco mais essa ideia de importância, eu diria que, ao meu ver, existem três dimensões muito importantes.

1) A contribuição da ASA para uma afirmação dos direitos fundamentais da vida humana.

Não se trata de favor ou caridade, e sim de garantia de direitos. Dizer e reafirmar isso num momento tão delicado política e humanitariamente é algo necessário e urgente.

2) O fortalecimento do vínculo socioafetivo com crianças, adolescentes, idosos e famílias atendidas e, também, do vínculo comunitário.

Cada vez mais percebo os serviços da ASA como uma importante referência para o desenvolvimento humano. Nesse sentido, mediar essa relação, num momento de tanta incerteza e insegurança, por meio dessa campanha, significa ampliar a legitimidade deste vínculo e poder dizer a essas pessoas que elas podem, sim, contar com a gente.

3) A oportunidade que a própria ASA tem de ressignificar sua missão e seus modos de organização internos enquanto organização da sociedade civil.

É notório o movimento interno da ASA de mobilização e de sensibilização de cada colaborador em torno das principais necessidades deste momento tão atípico. Estamos todos mais distantes fisicamente, mas, como equipe institucional, talvez nunca estivemos tão unidos em torno de uma causa comum. Quanto mais fortalecidos estivermos como equipe, sem dúvida, mais potentes ainda serão nossas ações e mais deliciosos serão os frutos colhidos dela.

ASA: O que te move a ser tão presente nessa campanha? Afinal, você participa do planejamento, da montagem e da distribuição dos kits para as famílias.

T.A.: Do ponto de vista pragmático, tem a ver com uma situação circunstancial. Afinal, nossas principais lideranças institucionais estão enquadradas como grupo de risco e isso naturalmente me coloca como, talvez, uma das poucas lideranças passíveis de estar em campo nesse momento.

Além disso, e caminhando para um motivo mais profundo e que muito mais me interessa, acho que assumir essa atitude é dar vazão a uma coerência. Sou filho de ex-lavradores de roça do interior da Bahia que não conseguiram concluir a Educação Básica. Nasci e cresci imerso a uma cultura periférica e numa família que nunca soube o que é ter reservas para sobreviver. Qual a diferença de boa parte das famílias que atendemos e suas condições de vida para a que eu vivi? As oportunidades que fui encontrando ao longo da minha trajetória e alguns atalhos que fui construindo me conduziram a “estar”, hoje, um coordenador geral dos CCAs da ASA.

Durante todos esses quase 20 anos em que atuo com desenvolvimento humano, pude aprender que “amarrar” minhas pernas e meus braços para achar que botar a mão na massa é papel apenas do profissional de logística ou de limpeza é uma vaidade muito equivocada e desrespeitosa.

É um momento que nos convoca a uma reflexão profunda e a vivenciar deslocamentos, atravessamentos ainda mais intensos. E algo que se faz cada dia mais certo é que, neste caso, minha presença é apenas uma pecinha em meio a todo o mecanismo que criamos. Definitivamente não estou sozinho nessa missão e essa é uma das maiores belezas nossas enquanto equipe ASA. Quer motivação maior que essa, ou seja, a constatação de nossa incompletude no mundo?

ASA: Como você avalia o trabalho dos voluntários nesse momento?

T.A.: Tivemos apenas duas voluntárias nessa primeira etapa da campanha, Marta e Juliana, às quais agradecemos imensamente pela responsabilidade assumida e pela consciência do papel que estavam exercendo. Ambas participaram da montagem dos kits, antes de serem enviados para as unidades.

Todo e qualquer trabalho voluntário é fruto de uma busca de sentido para a nossa própria existência. Não há dúvidas de que, ao doarmos nosso tempo e esforço em prol do outro, acabamos, de alguma forma, preenchendo nossos espaços internos de satisfação e de esperança.

Em particular, admiro bastante tal iniciativa e gosto da ideia de que ela seja cada vez mais incentivada e difundida em nossa sociedade.

ASA: Vocês estão planejando uma segunda etapa para essa campanha?

T.A.: Sim! Na primeira etapa, fizemos um recorte na questão sanitária e de saúde, devido à urgente necessidade de medidas preventivas mais imediatas quanto ao novo coronavírus.

Agora é momento de darmos continuidade a essa questão, mas também considerar outros aspectos essenciais, como alimentação, sobretudo pela iminente redução de renda que tais famílias terão nessa fase que se segue do isolamento.

Um pouco na linha do “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”, ou seja, pensando numa perspectiva mais integral dessa condição familiar, que contemple uma melhor qualidade de convivência e de desenvolvimento das crianças, adolescentes e idosos atendidos, inclusive oferecendo suporte às propostas de atividades que estamos enviando a eles, pretendemos usar uma parte do que captarmos para a compra e distribuição de materiais educativos.

Um formulário foi enviado às famílias para nos ajudar a ter um nível de assertividade cada vez maior quanto às principais necessidades em questão.

ASA: Gostaria de deixar algum recado para os colegas de trabalho?

T.A.: Aos meus colegas colaboradores, é importante lembrar que, embora a campanha esteja tratando exclusivamente do abastecimento dessas famílias quanto a itens essenciais para o enfrentamento da pandemia, o trabalho que está sendo feito pelas equipes de cada serviço também contempla a produção e envio de vídeos educativos, o diálogo constante com as famílias sobre como estão atravessando esse período de isolamento e o acompanhamento à distância.

Mais do que qualquer recado, eu quero muito agradecer a cada pessoa que com a gente atua. Existe uma coexistência nisso tudo. A gente aponta nosso olhar para o que é necessário socialmente no mesmo instante em que olhamos para dentro de nossas casas e vemos mães, pais, parentes que fazem parte do grupo de risco do Covid-19.

Pude viver nas últimas semanas momentos inesquecíveis com cada equipe, de cada lugar. A cada colega de ASA, lanço meu abraço simbólico, com sabão, álcool em gel, máscara e luva, mas, mesmo assim, um grande, sincero e demorado abraço. E proponho o pacto de intensificarmos ainda mais nossas atenções, porque a campanha continua… e para melhor!

Um agradecimento especial ao Thales que, com força da alma e dedicação de guerreiro, peitou essa luta com garra, reforçando os ideais da ASA! Um beijo no seu coração, Teli e equipe ASA.