Unidades | 11.09.2019 | Publicado por COMUNICAÇÃO ASA

Entrevista com Andrea Castanho | Projeto Previna-se

Veja o que a psicóloga Andrea Castanho, responsável pelo Projeto Previna-se, diz sobre este trabalho

 

ASA: O que é o Projeto Previna-se e qual a importância para as crianças, adolescentes e familiares?

ANDRÉA: O Previna-se é um projeto de educação sexual que visa a formação de indivíduos capazes de fazer escolhas saudáveis em suas vidas. Neste sentido, é preciso entender a sexualidade como um processo complexo do desenvolvimento humano que envolve tanto a esfera física como a afetiva e a ambiental.

O projeto traz conhecimentos, estimula a reflexão e debates com as crianças e adolescentes sobre todo o processo de crescimento e entrada na adolescência, dando ênfase às mudanças corporais e emocionais presentes em cada momento.

O nome Previna-se surgiu da ideia de que cada um deve tornar-se responsável pelas suas escolhas a partir do momento em que tiver mais informação e compreensão sobre alguns temas. Eles se tornam protagonistas no que diz respeito a prevenção de gravidez precoce, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, e devem reconhecer e saber se prevenir em situações de violências e abusos sexuais.

É importante ressaltar que os familiares também são assistidos pelo projeto. Três a quatro vezes por ano, realizamos encontros para conversar com eles e esclarecer dúvidas sobre os temas trabalhados nas oficinas com as crianças e adolescentes,  a fim de não criar ruídos na comunicação, bem como ampliar os repertórios familiares para lidar com questões da sexualidade. As falas abordam temas  de tolerância, preconceitos, as mudanças comportamentais e emocionais características do desenvolvimento, a relação pais (responsáveis) – filho, entre outros.

 

ASA: Quais os maiores desafios para o desenvolvimento deste projeto e como foram superados?

ANDRÉA: Acredito que as dificuldades são permanentes, porém não estáticas. Acho um desafio constante manter a escuta ativa a todo momento. Os educandos se manifestam de maneiras singulares e é preciso estar realmente atento para ouvir as demandas manifestadas em suas colocações e, desta forma, acolher e dar sentido ao que é vivido.

Existe também a questão de criar novos parâmetros e ressignificar alguns valores fundamentais para construção de relações interpessoais saudáveis, como o respeito, a empatia e a cooperação. Grande parte das nossas crianças e adolescentes vivem em um contexto de grande vulnerabilidade social e algumas dessas questões são corrompidas. De maneira alguma queremos reproduzir em nossas oficinas um ambiente de violência moral. Sendo assim, procuramos dar voz às crianças e aos adolescentes criando estratégias para que eles se sintam tocados em seus saberes e vivências. Que as dinâmicas sejam significativas a ponto de promoverem novas experiências e reflexões a cerca de seus afazeres cotidianos.

 

ASA: Qual o caso mais marcante que você presenciou?

ANDRÉA: Tenho algumas histórias que vou levar em minha memória para sempre. Um caso emblemático do projeto foi o de uma adolescente de 13 anos com histórico de depressão e automutilação que, ao longo das aulas, foi elaborando algo doloroso de seu passado.

Após uma oficina sobre abuso sexual, vi que ela tinha ficado mais calada e até chorosa. Dei-lhe um abraço e disse que estava disponível para conversar quando ela quisesse. No mesmo dia ela me chamou para uma conversa e revelou que havia sido abusada dos 6 aos 9 por um membro da família. Depois de todo acolhimento pudemos fazer os encaminhamentos necessários, bem como fortalecer a adolescente para que pudesse revelar o ocorrido à sua família. Foi um trabalho em equipe muito bonito.

 

 

ASA: Quais os próximos passos do projeto?

ANDRÉA: Seguir com a formação continuada, criar um espaço potente de troca, escuta e acolhimento, fazer os encaminhamentos e articulando a rede de proteção das crianças e adolescentes quando necessário (família, escola, conselho tutelar, CREAS, CAPS, UBS, CRAS entre outros). Aumentar a proximidade com os orientadores socioeducativos para que eles também tenham o entendimento que a sexualidade não diz respeito apenas aos encontros sexuais e suas consequencias, mas que fala sobre o ser e estar no mundo dos indivíduos: o que falam, o que vestem, como se comportam, como constroem vínculos afetivos.

Para além das oficinas, vislumbramos para um futuro próximo a interlocução com outros espaços de cuidado, trocando conhecimentos adquiridos e as dúvidas pulsantes ao longo desses anos do projeto Previna-se. Temos o desejo de produzir artigos, participar de simpósios, congressos e publicar na área de educação sexual.